FIAN Brasil acompanha oficina de elaboração de calendário agrícola em Laranjeira Nhanderu (MS)

Com o objetivo de construir instrumentos de valorização sociocultural e fortalecimento da autonomia indígena frente às múltiplas violações enfrentadas, o FIAN Brasil está apoiando a elaboração de um Calendário Agrícola Guarani-Kaiowá e Nhandeva. A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Rede de Apoio e Incentivo Socioambiental (RAIS) e envolve seis áreas no Mato Grosso do Sul: Laranjeira Nhanderu, Guaiviry, Ypo’i, Nhanderu Marangatu, Apyka’i e Kurusu Amba. Nos dias 23 e 24 de maio, a Secretaria Executiva esteve presente em Laranjeira Nhanderu para acompanhar a realização da segunda oficina do processo.
As oficinas utilizam metodologia participativa e intercultural, reconhecendo os Guarani-Kaiowá e Nhandeva como protagonistas na produção de conhecimentos sobre seus próprios territórios e sistemas alimentares. Por meio de rodas de conversa, desenhos coletivos, linhas do tempo e mapas sazonais, anciãos, rezadores, agricultores, mulheres, jovens e professores indígenas dialogam sobre ciclos climáticos e astronômicos tradicionais, períodos de plantio e colheita, espécies cultivadas e variedades tradicionais, práticas rituais associadas à agricultura e os impactos das mudanças climáticas e da degradação ambiental sobre os sistemas produtivos.
O calendário que está sendo construído vai além de um registro documental de práticas agrícolas: é uma sistematização viva dos conhecimentos sobre os ciclos da biodiversidade, as relações entre agricultura e cosmologia e as estratégias contemporâneas de adaptação e resistência. O material poderá ser utilizado como ferramenta pedagógica nas escolas indígenas, instrumento de diálogo com gestores públicos e subsídio para a incidência política em defesa do Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas (DHANA), inclusive junto a programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
A importância do calendário foi expressa por quem participa diretamente do processo. Elisa, professora em duas aldeias e que também fornece alimentos pelo PAA, destacou o que a ferramenta pode mudar na prática: “É muito boa a proposta do calendário, porque entregamos ao PAA e às vezes não entendem a periodicidade das nossas plantações. Às vezes querem nos pedir para entregar em períodos de frio e geadas, que não tem como.” Hélder, agricultor, traduziu o que a iniciativa representa para a comunidade: “Eu via outras aldeias com seu calendário e me perguntava se teríamos o nosso em algum momento. E agora vamos ter.”






















